::: Terça-feira, 18.12.2007 - Edição Número 211 :::

DÉDA E O MILAGRE DO HOSPITAL EFICIENTE
Milagres são ações extraordinárias, sinais da manifestação divina em benefício de alguém em particular ou de várias pessoas ao mesmo tempo. O profeta Moisés operou o milagre de atravessar o Mar Vermelho ao lado de milhares de judeus por um caminho aberto entre as águas. A natureza sobrenatural de Jesus foi revelada por inúmeros milagres, especialmente as curas. A transformação da água em vinho, maior dos milagres, provava o poder divinal nele existente. Sergipe também tem um “milagreiro”. Desde janeiro, o governador Marcelo Déda tem demonstrado imensa capacidade para promover mudanças num passe de mágica. Ao assumir, sem ter assentado nenhum tijolo, fez alarde ao fechar a Casa de Detenção de Aracaju e alocar os marginais numa nova ala recém concluída no presídio de São Cristóvão. Era a primeira ação brilhante do novo governo. Outra ação cujo feito emblemático é motivo de orgulho no governo do PT é a economia de mais de R$ 800 milhões feita desde janeiro. O milagre é ter guardado tanto dinheiro, mesmo tendo recebido o estado em petição de miséria e ainda assim, graças à extraordinária capacidade transformadora de Marcelo Déda, não atrasar salários, pagar dívidas e honrar despesas e repasses constitucionais. Milagres no governo do PT são muitos. A ponte Mosqueiro/Caueira, antes uma obra desnecessária, foi milagrosamente transformada em “obra que enche os sergipanos de orgulho”. A maternidade Nossa Senhora de Lourdes, fechada até o início deste mês, apesar de totalmente pronta para funcionar, é outros dos “sinais” divinos do governo da mudança. Depois do toque do Midas, está um brinco! Mas nada se compara ao milagre operado no final de semana passado. Parecia algo de outro mundo, mas quem acompanhou a visita do governador Marcelo Déda ao hospital João Alves ficou surpreso com algo verdadeiramente extraordinário: os corredores, famosos por abrigar pacientes, estavam vazios. A incredulidade foi geral! A edição de ontem deste e.zine antecipou a operação limpeza que transformou o hospital antes da visita do governador milagreiro: “Pacientes em estado razoável foram encaminhadas de ambulância às respectivas residências, levando consigo os medicamentos receitados. Quem não tinha tal condição foi transferido para unidades de saúde conveniadas –hospital Cirurgia e outros da capital e interior. Até os sobrecarregados e deficientes hospitais da prefeitura de Aracaju entraram na quermesse do ‘hospital eficiente’”. O mais engraçado de tudo isso é ver como a banda pobre da imprensa se comporta. Transforma um descarado engodo em verdadeiro sinal da divindade entranhada na cadeira do governador. Um milagre atrás do outro...

::: Segunda-feira, 17.12.2007 - Edição Número 210 :::

OPERAÇÃO LIMPEZA
O final de semana foi bastante movimentado para o staff de assessores do deputado-secretário Rogério Carvalho e para dezenas de servidores da Secretaria de Saúde. Hoje, a partir das 11h00, acompanhado da imprensa, o governador Marcelo Déda fará uma “visita de inspeção” ao Hospital João Alves para saber se a situação de penúria, açodada pela inação do governo do PT, está sob razoável controle. Visitará também a maternidade Nossa Senhora de Lourdes, finalmente posta para funcionar na calada da noite duas semanas atrás. O motivo do reboliço do sábado e domingo foi exatamente preparar o cenário adequado a ser visto pelo povo através dos olhos da comunicação: um novo hospital, onde tudo funciona maravilhosamente bem. Para tornar a “mágica” possível, pacientes em estado razoável foram encaminhadas de ambulância às respectivas residências, levando consigo os medicamentos receitados. Quem não tinha tal condição foi transferido para unidades de Saúde conveniadas –Hospital Cirurgia e outros da capital e interior. Até os sobrecarregados e deficientes hospitais da prefeitura de Aracaju entraram na quermesse do “hospital eficiente”. Ontem, a Operação Limpeza ainda mobilizava uma imensa equipe de terceirizados. Aviso aos colegas: muito cuidado, pois em alguns pontos a tinta não secou por completo. A chegada do governador Marcelo Déda será um verdadeiro espetáculo, ensaiado exaustivamente para garantir que ele tenha sempre ao lado uma multidão de funcionários do hospital. Servirá para mostrar ao povo que aquele clima de animosidade pelo desespero de profissionais inconformados com o tratamento dispensado aos usuários é coisa do passado. A ordem é manter a arcada dentária à mostra sempre que câmeras fotográficas e de vídeo mirarem. Assim, mais uma vez, o governo do PT “inova”... Na canalhice! Incapaz de manter o Hospital João Alves funcionando num mínimo padrão de qualidade, apela para o descaramento de transferir pacientes a fim de iludir a população com a falsa sensação de organização, serviços e operacionalidade de primeiro mundo. Resta saber se, a partir de agora, todos os dias o governador da mudança vai dar uma passadinha por lá! Pois só assim, com ele na “cola”, pelo menos na base do subterfúgio, o governo das estrelas se mostra de alguma forma astutamente mobilizado e capaz. Capaz de tudo...

::: Sexta-feira, 14.12.2007 - Edição Número 209 :::

ESTADO DOS PERDIDOS
Lembra daquela satírica série da TV americana reproduzida no Brasil no finalzinho dos anos 1970, começo da década de 1980, chamada “Perdidos no Espaço”? Um casal e seus três filhos, um ex-piloto de guerra americano, um médico e um robô rodavam pelo universo em busca da Terra, que havia sumido do mapa. Os sergipanos vivem hoje situação semelhante àquela do intrépido grupo aventureiro. Em busca de um estado modernoso, descobriram-se completamente perdidos no imenso vazio da administração Marcelo Déda. Dezembro chegou e com ele o Ano Novo. Passaram-se quase 12 meses e tudo no governo da mudança cabe perfeito no buraco negro das promessas de palanque até hoje não cumpridas. Falta disposição para o trabalho, mas os salários de marajá pagos aos secretários são os melhores do Brasil. O retrato da Saúde é patético: hospitais fechados, falta de remédios e o povo morrendo como pulga; já os apadrinhados se lambuzam no mel da enxurrada de contratos sem licitação. Dias desses, um pobre coitado passou por todo o pré-operatório e já na mesa de cirurgia tentaram cortar a área da intervenção com uma “faca” (bisturi) cega; o cidadão foi mandado de volta à enfermaria até que o material cirúrgico fosse comprado. Os programas sociais de combate à pobreza se resumem a ajudar carentes filiados ao PT. Ações respaldadas pelo povo verdadeiramente necessitado, como o “Banco do Povo”, “Sergipe Alfabetizado”, “Pró-Mulher/Pró-Família” e o “Sergipe Minha Casa”, de erradicação de casas de taipa, foram parar na lata do lixo. A falta de segurança pode ser ilustrada pelos casos da delegada assaltada, da polícia de carona no carro de uma emissora de TV para chegar a um seqüestro em Monte Alegre, das fugas em demasia dos presídios, da superlotação nas delegacias. Num estado onde uma cidadã entra em um distrito policial armada e consegue resgatar o esposo que estava detido, a segurança vai muito mal. Marcelo Déda, por seu turno, está bem “achado”. Ganhou até uns quilinhos a mais. A pança é visível. O governador da mudança usa o poder obtido pelo voto para perseguir adversários e nutrir a trupe que lhe afaga o ego. Cercado de puxa-sacos dispostos a decantar-lhe as próprias virtudes, finge desconhecer a triste realidade do cotidiano. Focado apenas em interesses comezinhos e no aproveitamento rasteiro e mundano da estrutura a que todo governante tem direito, dos vinhos caros aos charutos cubanos legítimos, a grande estrela do PT sergipano age como se fosse um “novo rico”! É esperar que em algum ponto do espaço siderado desta rotina encontre ele a Terra da razão, capaz de fazê-lo deixar de lado a vida mansa e finalmente dar início ao tal governo que tiraria Sergipe do vácuo do atraso! É o que se espera para 2008...

::: Quarta-feira, 12.12.2007 - Edição Número 207 :::

SEM VASELINA
Dias atrás, o líder da oposição na Assembléia, Venâncio Fonseca, alertou sobre o comportamento do governador da mudança no trato com o Legislativo. Após denunciar que Marcelo Déda estaria governando por decreto, o deputado desnuda agora a manobra na reta final do ano para a votação de 10 projetos, polêmicos na maioria e que requerem grande discussão antes de ser votados. Reduzida a seis parlamentares, a oposição não pretende aceitar em silêncio as imposições do governo do PT. A atual legislatura se encerra amanhã e os parlamentares teriam teoricamente somente dois dias para apreciar as propostas em tramitação na Casa. Para Venâncio, trata-se de um grande absurdo, pois o governo não teve pressa de votar as proposituras durante os últimos 10 meses: “Por que a Assembléia vai ter pressa para votar tanta coisa sem discussão?”. Para os capangas infiltrados na mídia que já preparam a defesa prévia do governador Marcelo Déda, apontando a má vontade da oposição, surge o contraponto: muitos dos projetos praticamente dão carta branca ao Executivo para fazer o que bem quiser em setores estratégicos. Delegar tanto poder a um governo que flerta com o autoritarismo, o revanchismo e a esperteza não é de bom alvitre. Aproveitar-se das horas finais de um ano legislativo completinho para empurrar apressadamente nos deputados, sem nenhuma conversa, as tais propostas de mudança é mais um dos inúmeros oportunismos descarados do governo do PT. Debater é preciso! Se os deputados estaduais liberarem a prerrogativa, a próxima incursão do poderoso governador num legislativo passivamente ajoelhado poderá ocorrer sem a esperada e providencial “vaselina”...

::: Terça-feira, 11.12.2007 - Edição Número 206 :::

INFERNOS DO RETROCESSO
Os capangas midiáticos infiltrados na imprensa sergipana tentam a todo custo minimizar o desastroso primeiro ano do governo do PT. Sem poder apresentar nada de concretamente novo ao ludibriado eleitorado, a cafajestada tapa os buracos das colunas “jornalísticas” falando até da relação de Marcelo Déda com o espelho. O governador da mudança estaria esgotado fisicamente por conta do exercício mental diário, que faz tão logo acorda, para conter o excesso de otimismo. A dificuldade no controle da empolgação advém do fato de o príncipe petista enxergar um excelente futuro para Sergipe. A conversão de Marcelo Déda à futurologia é pertinente e pelo visto bastante necessária. Como seu governo não deu conta dos inúmeros problemas administrativos do presente, acreditar piamente em dias mais auspiciosos, conforme imaginado quando conversa com o próprio espelho, além da sensação de alívio pelo desapontamento causado nos que nele confiaram, dá ao governador da mudança a chance de pensar em algo positivo. Atarefadíssimo na perseguição mesquinha aos adversários e no desmonte do programa de gestão deixado pelo ex-governo, Marcelo Déda teve tempo nos últimos 11 meses apenas para guardar quase R$ 800 milhões e assinar os financiamentos dos projetos negociados pelo ex-mandatário, cuja soma prevista chega a R$ 500 milhões. As notícias alvissareiras do crescimento do PIB, melhor qualidade de vida do Nordeste (IBGE/Censo 2006), obras do PAC, conclusão de rodovias, início da ponte Mosqueiro/Caueira, entrega da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes e até empreendimentos industriais e turísticos resultam na verdade das intervenções da administração anterior. Assim dito, o “céu de brigadeiro” sonhado pelo governador da mudança para 2008 nada tem a ver com um provável golpe militar aplicado desta feita pela Aeronáutica ou com alucinações provocadas pelos efeitos colaterais de medicamentosos indicados a combater o estresse. A futurologia só comprova que nem Marcelo Déda agüenta mais tanta notícia desagradável: descontrole total na Segurança, mortes por causa da imundície dos nosocômios, esperteza nas licitações da Saúde, paulada nos estudantes que protestam, desprezo pelos servidores, salários de marajás dos secretários... Lamentável perder um ano inteiro. Comemorar o quê? Para 2008, as esperanças se renovam. Dinheiro tem de sobra, projetos existem, promessas do presidente Lula da Silva de ajuda não faltam. A escassez de pessoal abalizado no Partido dos Trabalhadores é um problemão. Não se acha na esquina gestores probos e competentes, dispostos a pegar duro no batente. Estes são os grandes desafios de Marcelo Déda no ano vindouro. O PT também precisa descer do palanque e permitir a construção do almejado novo modelo de gestão, declamado em verso e prosa pelo governador eleito em outubro de 2006. Desapegar-se da Mãe-estado já seria um bom começo. Afinal, Sergipe não merece permanecer bancando os prazeres de quem nunca provou do mel nem tacanhamente focado no retrovisor, à mercê de quimeras e sempre a esperar por dias melhores! 2008 deve ser o ano da ação...

::: Segunda-feira, 10.12.2007 - Edição Número 205 :::

TRANSPOSIÇÃO DO BANESE
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Altos empresários sergipanos estão preocupados com o destino do Banco do Estado de Sergipe (Banese). Com receio das represálias, comentam a boca miúda sobre certa operação ultra-secreta, engendrada entre o governo federal e o governo da mudança, visando adequar a instituição financeira à cartilha dos privatizáveis, seguindo o receituário do Banco Central para operações do gênero. Ao lidar com o mercado financeiro no Sudeste, a elite dos empresários sergipanos é sempre questionada sobre os procedimentos adotados pelo governador Marcelo Déda, especialmente na gestão estratégica do Banese. Além de administrar a folha de pagamento do Estado e da maioria das prefeituras e grandes empresas sergipanas, o Banese é responsável por fomentar o desenvolvimento do estado emprestando a juros baixos. Segundo a mais conceituada agência internacional de avaliação de risco com atuação no Brasil, a Austin Rating (05.01.2007), o banco se destaca pela “elevada solidez, tanto no âmbito financeiro como corporativo/institucional, com efeitos positivos no crescimento e sustentabilidade do banco, refletindo no desempenho fiscal do seu controlador, o Estado de Sergipe”. Por estas razões, os grandes financistas brasileiros e internacionais flertam com a privatização do banco sergipano, mas sabem que há um concorrente extremamente forte na jogada. O Banco do Brasil. O mais forte banco do País tem interesse especial pelo mercado onde o Banese é hegemônico. Para atender ao interesse do compadre-presidente Lula da Silva de aumentar ainda mais o raio de atuação do Banco do Brasil, o governador da mudança chega ao ponto de sangrar o banco sergipano, transferindo para o Banco do Brasil parte da receita do estado. No embate com o deputado Mendonça Prado duas semanas atrás, o secretário Nilson Lima (Fazenda) confessou que parte dos mais de R$ 800 milhões economizados desde janeiro pelo governo do PT estavam depositados no banco federal. Em abril de 2004, o então vereador Antônio Gois denunciou a “intenção” do governador João Alves Filho de privatizar o Banco do Estado de Sergipe. Goisinho chegou a detalhou na tribuna da Câmara como a operação era feita. As “visões” do atual presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) podem agora se concretizar, justamente pelas mãos de quem ele ajudou a eleger. O governo do PT nega a intenção de privatizar o Banese. Por mais de uma vez, o líder petista na Assembléia, Francisco Gualberto, rechaçou a possibilidade e disse que quem pretendia vender o banco era João Alves Filho. Diante de tanto alvoroço do mercado financeiro, das várias inquirições de agentes dos grandes bancos aos empresários locais e as ações sorrateiras de sabotagem do Banese realizadas pelo PT, incluindo o assassinato do Banco do Povo, só resta mesmo esperar para ver onde a novela da privatização vai acabar. Mas, como diz o ditado, onde há fumaça...

:::Sexta-feira, 07.12.2007 - Edição Número 204:::

SERGIPANOS SE SOLIDARIZAM COM DOM CAPPIO
Acompanhados do ex-governador João Alves Filho, deputados democratas sergipanos estão nesta sexta-feira em Sobradinho (BA), onde participam das manifestações em defesa do rio São Francisco. Para se solidarizar com o bispo dom Luiz Flávio Cappio, em greve de fome desde 29.11, já pela segunda vez, contra o projeto do governo federal em transpor as águas do Velho Chico, os parlamentares apresentaram uma “Moção de Solidariedade” reafirmando o compromisso do povo sergipano com a preservação do rio. Como na primeira greve de fome em 2005, dom Cappio está na capela de Sobradinho e recebeu o ex-mandatário e os deputados pela manhã. Familiares do bispo estiveram no encontro, cercado de muita emoção, pois dom Cappio tem no ex-governador sergipano uma das mais expressivas lideranças no País contra a transposição. Agora a pouco, por telefone, João Alves Filho disse a este blog que dom Cappio tem uma fibra extraordinária. “Continua de pé, rezando missa. Não é o fundamentalista que o governo federal tenta ignorar, mas um homem santo cuja trajetória de vida está intimamente ligada ao São Francisco. Diante da insensibilidade do governo do PT, resta-nos continuar lutando pela via judicial para impedir a continuidade da obra. Se depender de nossa disposição, a transposição será barrada”. Na edição de hoje, o jornal FOLHA DE S. PAULO publica artigo do ex-governador João Alves Filho em “Tendências e Debates”. Leia o texto:
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D. CAPPIO E O MITO DA FALTA D'ÁGUA JOÃO ALVES FILHO
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Com a retomada da greve de fome de dom Luiz Flávio Cappio, o presidente Lula e seus áulicos tentam passar a imagem de que ele é um fanático religioso. O ministro da Integração, Geddel Vieira Lima, ousa desrespeitosamente associar a imagem do bispo a uma espécie de fundamentalista islâmico.
Na realidade, dom Cappio é um líder religioso profundamente comprometido com sua principal missão, que é divulgar a fé aos sertanejos e levar a eles os eternos ensinamentos de Deus, mas sem desconectá-los do mundo injusto em que habitam.
Daí por que, convencido de que quem convive com a miséria não tem serenidade para cultivar dignamente a religião, se empenha em extirpar a miséria, defendendo os sertanejos daqueles que tentam legitimá-la com demagogia e promessas enganosas.
Trata-se de um sábio, culto, avesso à demagogia, conhecedor do sertão nas suas entranhas e, em especial, do Velho Chico, cujas margens percorreu a pé denunciando sua degradação bem antes de se falar em transposição. Um estudioso das técnicas de convivência com as secas e equacionamento dos recursos hídricos locais -tão simples e baratas que os chineses e os indianos as praticam com sucesso há milênios em regiões de climas bem mais hostis do que o nosso.
Dom Cappio tem consciência também de quatro fatos dos quais a nação precisa tomar conhecimento. Primeiro, a transposição não é destinada a salvar os nordestinos da seca, pois apenas uma minoria irrelevante do semi-árido receberá água na porta, mas se destina ao agronegócio, que utilizará uma água caríssima, levada a 700 km, que terá que ser subsidiada a vida inteira. Porém, temos milhões de hectares de terras à beira do rio cuja irrigação, sem subsídio, proporcionaria alimentos baratos e geraria 1 milhão de empregos.
Segundo, o governo, maquiavelicamente, esconde uma realidade que surpreenderia a nação: não há falta de água no Nordeste setentrional, mas, isto sim, ela existe em abundância tal que, teoricamente, daria para abastecer 100% dos nordestinos.
Terceiro, o rio São Francisco está na UTI e a transposição ameaça provocar sua morte, gerando o maior desastre ecológico e socioeconômico da história brasileira. Quarto, Lula mentiu para conseguir a interrupção da primeira greve de fome de dom Cappio, certamente com receio das conseqüências para a reeleição, com promessas enganosas de que iria parar a obra da transposição para discutir com ele, com membros da sociedade civil e ecologistas que têm propostas alternativas, demonstrando tecnicamente projetos racionais para levar água na porta pela metade dos custos para a totalidade dos dez Estados do semi-árido nordestino e mineiro. Por dois anos, o bispo esperou pacientemente a abertura do prometido diálogo, mas a resposta de Lula foi ameaçadoramente mandar o Exército iniciar a obra.
Por falta de espaço, não posso aqui detalhar o gigantesco manancial de água disponível nos Estados do Ceará, do Rio Grande do Norte e da Paraíba, explicando a simplicidade do supracitado projeto alternativo. Faço, contudo, um convite ao ministro Geddel, que executa a obra que tanto combateu, para um debate aberto, para que a nação saiba de toda a verdade sobre essa obra freneticamente aplaudida pelos empreiteiros, seus felizes apaniguados, pelo agronegócio retrógrado, que pleiteia água subsidiada, e pela indústria da seca, que, após sua conclusão, continuaria abastecendo os famigerados carros-pipas e as latas d'água na cabeça da pobre gente dos próprios quatro Estados "beneficiários" da obra da transposição, que, tardiamente, compreenderia que foi a principal enganada pelo governo Lula, que fomenta a cizânia entre irmãos nordestinos.
Finalmente, uma ponderação final para que o presidente Lula, que, do alto de sua autolouvação costuma ser infenso a conselhos. Avalie melhor o artigo de frei Leonardo Boff, que, com a autoridade de ex-professor do então seminarista dom Cappio, com quem ele já se destacava por "uma aura de simplicidade e santidade", advertiu: "Entre o povo que não quer a transposição e as pressões de autoridades civis e eclesiásticas, dom Luiz ficará do lado do povo. Irá até o fim. Então a transposição será aquela da maldição, feita à custa da vida de um bispo santo e evangélico. Estará o governo disposto a carregar essa pecha pelo futuro afora?".
. JOÃO ALVES FILHO, 66, é engenheiro civil. Foi governador de Sergipe por três mandatos (1983-87, 1990-94 e 2003-06) e ministro do Interior (gestão Sarney). É autor de, entre outros livros, "Transposição de Águas do São Francisco: Agressão à Natureza vs. Solução Ecológica". jaf.sergipe@gmail.com

Quinta-feira, 06.12.2007 - Edição Número 203

::: NOTA
Na terça-feira, recebi a notícia do assassinato do irmão do meu pai, tio Unaldo Bispo, vítima de um assalto ocorrido no interior do Ceará. Como em casos assim, a família esteve mobilizada para tomar as providências legais. Motivo pelo qual não pude postar o material de ontem. Pelos transtornos, nossas desculpas.
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::: SE FALTA MORAL
Quem ouviu a entrevista do presidente reeleito do PT (JOVEM PAN FM, 03.12), secretário de Meio Ambiente Márcio Macedo, deve ter se espantado com a humildade do rapaz, flagrantemente contrastando com a forma beligerante da sua campanha eleitoral. Dos palanques, para impressionar a patuleia e aparentar destemor, Márcio destilava ódio pelo adversário da vez. Referia-se ao ex-mandatário como malfeitor, cuja "navalha" política, tão carregada de simbolismos quanto às usadas pelos mafiosos italianos até hoje para ostentar poder e glória, deve ser combatida sem trégua.
Desprezíveis são os homens que não comungam nem se devotam à seita petista. Bastou a reação de quem não leva desaforo para casa, especialmente quando sente a honra ferida, para a banda podre da nossa imprensa achincalhar a "alma errante" mencionada por Márcio Macedo nos "comícios" como o retrato do atraso e embalar com mimos o "garoto inocente", preposto do verdadeiro dono do PT. Mesmo não disputando o cargo de presidente do Partido dos Trabalhadores, o ex-governador João Alves Filho era o prato fixo para servir às massas.
Tempos estranhos estes, quando para angariar votos dos próprios correligionários um postulante a presidente de partido precise reinventar o Diabo e o inferno, embutindo todos os apetrechos descritos por Dante e Virgílio nas viagens com o barqueiro Caronte, agora na cor vermelho-carmim. Talvez Márcio ignore o final da Comédia, onde o inferno surge frio, muito frio. E lá rumina a alma de quem trai a decência, a ética, a moral...
Na entrevista ao apequenado jornalista André Barros, o reeleito presidente estadual do PT agradeceu a votação e previu que a esquerda vai continuar no comando de Aracaju. Motivação? Apesar de forte, JAF não é imbatível. Aliás, já levou rasteira no ano passado! Márcio Macedo prestaria extraordinário serviço ao governo da mudança, a que serve sem inibição, se aposentasse o lado Mãe Dinah e catasse os cacos da ética pública, a cada dia assassinada por ele com o acúmulo imoral de jetons (são R$ 15 mil mês/mês + R$ 12 mil de salário, fora os extras) e pela condição dúbia de presidente de partido e secretário estadual.
Como bem lembrou algum insatisfeito lisonjeador do governador Marcelo Déda infiltrado no JORNAL DA CIDADE (05.12), caso existisse comissão de ética no probo governo das prometidas mudanças, a situação de Márcio Macedo estaria complicada. Para melhor ilustrar o recado, o "Periscópio" rememorou a conclusão da Comissão de Ética Pública Federal quanto à incompatibilidade do exercício do cargo de ministro com o de presidente de partido. Ou seja, por "jurisprudência" o mesmo deveria valer por aqui. Mas em Sergipe, a moralidade e a ética andam cada vez mais escassas! E quando falta...
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Nos Peitos da Mãe-Estado - Como se não fossem suficientes os colaboracionistas da terrinha, o governo do PT tratou de inchar a máquina com amorais importados. Afeito a tricotar com fofoqueiras, o misto de jornalista "faz-tudo e deixa limpo" Zoroastro Penha Sant'Anna criticou o pessoal do governo da mudança encantado com o canto da sereia dos jetons dos conselhos (portal INFONET (13.11). Maldisse quem recebe de um e os mais exagerados, com até cinco conselhos. Difamou ainda gente que preside órgão do Estado e recebe para aconselhar a própria repartição. Quis saber se seria justo, moral, ético!
O "faz-tudo" comentou terem lhe confidenciado sobre certo "levantamento" de todos os cargos comissionados do governo da mudança: quem é quem, quanto ganha. A lista, garante ele, contém ex-mulher de político, parente, aliado, inimigo político e até empregada doméstica. Amorais? Com certeza.
O DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO de 19.11.2007 publicou o decreto de nomeação do vestuto e zaratustro Zoroastro Penha Sant'Anna para o cargo de consultor técnico-operacional (CCE-07: R$ 2.279,49/mês - Atenção, credores!) na Secretaria de Saúde, a partir de 01.12.2007. Agora, "oficialmente", o jornalista baiano-carioco-paulistano, radicado por aqui desde que foi exilado pelos conterrâneos, poderá dedilhar sobre mais esta tosca corruptela do governo do PT. Será? Como diz prima Bernadete, quem não chora, ô meu filho, pode ficar sem mamar...

:::Terça-feira, 04.12.2007 - Edição Número 202:::

::: BALELAS DO PT E A GREVE DO BISPO
Os petistas sempre foram arrogantes. Depois que chegaram ao poder, comprovou-se também serem mentirosos contumazes. Quando da primeira greve de fome (outubro/2006) do bispo dom Luiz Flávio Cappio, o presidente Lula da Silva prometeu discutir o projeto de transposição das águas do S. Francisco. Era balela! Além de dar uma banana ao acordo feito para dom Cappio interromper o jejum, o governo do PT agiu em várias frentes e viabilizou o início da obra. Semana passada, cansado de tanta embromação, dom Cappio retomou a greve de fome. Só irá cessar o ato se o Exército for retirado da região e o projeto arquivado definitivamente. O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, disse que não se submete à chantagem de ninguém (A TARDE, 01.12). A prova de que fala sério é o pedido ao governador Jaques Wagner para colocar médicos à disposição do bispo. Diante da arrogância do representante do Grande Molusco, a morte do Velho Chico será precedida da de dom Cappio, pois quem o conhece diz que ele irá até o fim. No sétimo dia sem se alimentar, orando na capela São Francisco, em Sobradinho (BA), dom Cappio tem recebido apoio de pessoas do mundo todo. A greve de fome do bispo ganhou adesões na Bélgica e na França. São jejuns solidários, com duração de um a dois dias, cujo objetivo é fazer as autoridades brasileiras considerarem o ato extremo de dom Cappio. Hoje haverá ato pelas ruas de Sobradinho. Movimentos contrários ao projeto de transposição devem reforçar a manifestação. A concentração será em frente à capela, seguida de caminhada e paradas estratégicas até as margens do rio, onde uma missa será celebrada. . Terra em transe – Em março deste ano, num artigo no site CARTA MAIOR sob o título “Transposição da Maldição?”, frei Leonardo Boff alertava: “Se o governo quiser efetivamente levar água aos sedentos do Nordeste, deve reabrir a discussão pública ou então encampar o projeto da Agência Nacional de Águas. Caso contrário, a transposição será feita à custa da vida de um bispo”. Veja o texto completo em:

:::Segunda-feira, 03.12.2007 - Edição Número 201:::

:::HUGO CHÁVEZ, LULA DA SILVA
E O TERCEIRO MANDATO
Representado pela ascensão ao poder de aprendizes de ditadores, o viés autoritário da esquerda latino americana é cada vez mais nítido na forma como lida com o poder e especialmente na questão da alternância do mando político. Portanto, soa bastante eloqüente o enorme e suspeitíssimo interesse do presidente Lula da Silva pela metodologia usada na Venezuela para dar revestimento constitucional à ditadura. As constantes defesas do líder brasileiro e correligionários ao regime de Hugo Chávez agridem sobremaneira o receituário democrático em voga nas nações social e economicamente mais avançadas. Também neste quesito, e graças ao voluntarioso governo do PT, o Brasil ainda é um país do milênio passado. No indigente entender de Lula da Silva, os referendos usados na Venezuela para reformar a Constituição e dar sabor “democrático” ao regime oportunista de Hugo Chávez refletiriam “a vontade do povo” daquele país. É lamentável a cegueira política e a dislexia mental do Grande Molusco leva-lo a “confundir” democracia com realização de eleições e plebiscitos, excluindo do conceito valores superiores sem os quais ele não existe, como respeito às leis em vigor, independência dos poderes, liberdade de expressão, tolerância com as vozes discordantes, convivência respeitosa com autoridades e países. O Brasil merecia uma melhor representação... Ainda sob a ótica dos tais referendos, o criador do PT peca ao “esquecer” uma das características das últimas consultas na Venezuela. A alta abstenção. Na que aprovou a atual Carta Magna (15.12.1999), deixaram de comparecer 55,62% dos eleitores, índice inferior aos 62,35% registrados quanto à convocação de uma Assembléia Constituinte, em abril do mesmo ano. A maior abstenção (76,50%) ocorreu no referendo sobre a renovação da direção da central operária CTV (Confederação de Trabalhadores da Venezuela), em dezembro de 2000. Aparentemente, o povo venezuelano não parece estar assim tamanhamente inclinado a opinar sobre os destinos do País, como poderia imaginar Lula da Silva. Por que será? A oposição tem rejeitado as reformas de Hugo Chávez por considerá-las inconstitucional e ilegal. Grupos de empresários e comerciantes, jornalistas, advogados e o episcopado também rejeitam as mudanças porque elas outorgam poderes imperiais ao ditador e possibilitam eterniza-lo no poder. Talvez sejam estas boas razões para o povo da Venezuela desconfiar da boa fé do querido amigo e companheiro do presidente Lula da Silva e ignorar eleições e referendos.
. Terceiro mandato – Para (momentânea) tranqüilidade de parcela significativa da Nação brasileira, ontem a FOLHA DE S. PAULO publicou pesquisa do Datafolha onde ampla maioria rejeita mudar a lei para Lula da Silva concorrer em 2010. Somente em Pernambuco, Estado natal do Grande Molusco, 51% concordariam em dar a ele o direito de permanecer por mais quatro anos. Realizada entre os dias 26 e 29 de novembro, a pesquisa mostra 65% dos brasileiros dizendo “não” a um terceiro mandato consecutivo. Foram entrevistadas 11.741 pessoas, em 390 municípios de 25 Estados. A margem de erro é de dois pontos porcentuais para mais ou para menos. Como se quisesse dizer “calma” aos políticos, a maioria do povo também não acolhe a proposta de um terceiro mandato nem quando o questionamento é genérico (sem citar Lula). Para 63%, presidentes não devem ter direito a re-releição! O porcentual sobe para 66% quando se trata de governadores e vai a 67% no caso dos prefeitos. Ocorre que o Partido dos Trabalhadores se aperreia todo quando imagina um retorno ao macacão das fábricas. Ou seja, ao batente! Sem candidato para concorrer com os tucanos Aécio Neves e José Serra, urde silenciosamente com unhas e dentes para manter Lula da Silva onde está. O Grande Molusco nega querer disputar. Ontem mesmo, depois de saber da pesquisa da FSP, disse ser ele o primeiro a criticar a possibilidade de criar um terceiro mandato: “O número de contrários seria maior se eu tivesse sido ouvido!”. A direção do PT também nega a intenção de mudar a Constituição com esse fim. Como é praxe dos petistas dizer uma coisa e fazer exatamente o contrário, evitar um terceiro mandato passou a ser a prioridade de uma parcela dos congressistas e governadores e de seguimentos representativos da sociedade civil. Agora, tendo o respaldo de pelo menos 65% dos brasileiros (conforme o Datafolha), que não querem ver o País transformado numa Venezuela.
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