ROGÉRIA FARÁ
FALTA
Na segunda-feira
(04), aos 74 anos, o Brasil perdeu Rogéria, um dos seus mais
polêmicos e emblemáticos artistas nacionais, um ícone do mundo
gay!

Na primeira vez em
que estive pessoalmente com Astolfo Barroso Pinto – parece nome de
quem nasce predestinado à contradizer-se, não? – foi numa de suas
passagens por Aracaju, para um show no Teatro Atheneu. Creio que era
1988 ou 1989, não lembro ao certo. Entrevistei Rogéria e, numa
conversa nos bastidores do Jornal da TV [TV Jornal, canal 13], quis
saber como lidava com o preconceito.
Espirituosa e
muito falante, não se fez de rogada: “Quase todo artista sofre
preconceito, isso porque muita gente acha que somos vagabundos, que
estamos sempre entregues às orgias e às drogas. Às vezes, nem
mesmo os parentes e amigos levam a sério o nosso trabalho. Comigo
sempre foi pior porque vivo ‘montada’ 24 por dias. Não tiro a
fantasia nem para dormir, meu filho”. Rimos…
Rogéria era um
travesti “natural” – nunca fez cirurgia para mudar o sexo ou
injetou silicone para alterar o corpo. Aliás, na contramão dessa
estrovenga chamada “politicamente correto”, a artista era
conhecida por sair no braço com os colegas homofóbicos e jamais
levantou a bandeira da causa LGBT. “Engajada? Eu lá preciso ser
engajada, meu filho? Eu sou o engajamento em pessoa! Se as outras
travestis estão aí, agradeçam a mim, que sou uma bandeira”,
disse ela a O Globo no ano passado, quando lançava sua biografia
“Rogéria – Uma mulher e mais um pouco”.
Subiu aos Cosmos a
estrela das vedetes travestis, que se destacou nas boates de
Copacabana e em apresentações consideradas lendárias no Teatro
Rival. Rogéria deixará saudades sobretudo porque era uma artista
autêntico – ao seu modo, tempo e convicções! Filmou com grandes
cineastas e conquistou popularidade no rádio e na TV, participando
nos quais apresentou o universo do transformismo a um público mais
amplo, tornando-se a “travesti da família brasileira”, título
cunhado por ela mesma. Mas preferia o brilho do palco. Era lá que
pintava e bordava.
Nestes tempos
bicudos, quando uma simples piada pira a cabeça dos militontos,
causando um verdadeiro alvoroço e acusações de intolerância e
homofobia, Rogéria fará falta, pois pilheriava consigo mesma,
“cazamiga” e com quem ela olhasse na plateia e pegasse “para
Cristo”. Todos ríamos porque a vida foi feita para rirmos: de nós
e dos outros. E para os engajados, como diz um outro grande artista,
o danado do Ney Matogrosso, fica a dica: “Gay o caralho! Eu sou um
ser humano”.
Um grande e eterno
viva ao genial artista e ser humano maravilhoso Rogéria. Que viva
nas estrelas como brilhou aqui…