Quinta-feira, 18.06.09 - 21h30
Caro(a) Leitor(a):
Minhas confabulações com a intenção de provocar algum debate sobre temas os quais gosto de discutir e por em pauta para pessoas como você encontrou na Internet a liberdade de expressão sem depender de espaço na mídia, sempre muito focada nos fins políticos.
Meu ABRA-O-OLHO foi a primeira news letter de Sergipe. Fico feliz ao ver tanta gente agora também se inserindo no grupo dos que opinam. Quanto maior é a oferta de ideias maior será a diversidade de opiniões e quem ganha é sempre o leitor.
Passei quase um ano longe dos leitores. A campanha eleitoral me marcou sobremaneira e desde então muitas das minhas convicções foram aperfeiçoadas. O silêncio permitiu-me observar...
Muitos me cobraram um retorno ao ABRA-O-OLHO. A eles devo agradecimentos pelas palavras de sincero estímulo. Mas o momento é outro e a news letter é agora apenas uma boa e rica experiência, e material para um trabalho mais elaborado que agora desenvolvo.
Para não ficar com os dedos enrijecidos resolvi voltar a escrever. Mas o farei apenas no meu blog. Manterei o mesmo nome (ABRA-O-OLHO) como forma de referência. Pessoas das letras como eu são nutridas por palavras –as suas próprias e as que abusivamente lê em livros, jornais, revistas e claro na magistral internet.
Gostaria de convidá-lo(a) a participar desta nova etapa. Quando possível, dê-me o prazer da visita. Venha para um café literário com algum dedo de prosa. Venha sempre...
Muito grato pela atenção.
David Leite
http://abraoolho-dmilk.blogspot.com

19h15 - 18 de Junho de 2009
Sobre o diploma de jornalista e suas pendengas!
A discussão tomou ares de guerra entre "legalistas" e "libertários". Quem me conheçe desde cedo sabe quanto fui a vida inteira avesso à exigência do diploma. Mas encontrei no colunista de Veja, Reinaldo Azevedo, a quem --confesso-- admiro muito, argumentos sólidos, os quais aqui reproduzo, sobre como tal querela não se justifica nem se sustenta. Uma boa leitura. Volto amanhã. Uma excelente noite...
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Algumas pessoas estão revoltadas com o meu apoio incondicional ao fim do diploma específico para o exercício do jornalismo. E que fique claro: acho que não é necessário exigir diploma nenhum. E aí vamos corrigir algumas tolices para avançar: “Você fala em causa própria!” Eu? Que bobagem! Tenho diploma. Estava em situação legal na velha ordem. Os que foram meus contemporâneos na faculdade são testemunhas de que sempre fui contrário à obrigatoriedade. Mesmo quando esquerdista e meio porra-louca, corporativista nunca foi. O trotskismo, no meu tempo, por mais estúpido que fosse, não se parecia com a LER-QI. Não sabíamos consertar aparelho de ar-condicionado… Há gente reagindo como se falasse em nome de um guilda! Qual é?

Aí diz um: “Mas estudei por nada? O que faço com o meu diploma agora?” Bem, se foi “por nada”, está demonstrada a inutilidade do curso, e o STF não poderia ter mantido uma excrescência constitucional apenas para não evidenciar a obsolescência das faculdades. Ademais, canudo ensina alguém a escrever? A apurar? O sujeito o coloca ao lado do teclado, estabelecendo com ele, sei lá, uma relação mística ou fetichista? Mais: o fim da exigência do diploma tornou menos competentes os competentes diplomados? Quem, afinal de contas, perdeu o quê?

As comparações com profissões que põem em risco a segurança de terceiros ou a segurança pública são absolutamente descabidas. Eu é que não me consulto com quem não tenha se formado em medicina! Não que a formação impeça o profissional de errar, mas o diploma é uma garantia de que ele ao menos teve acesso a um conhecimento que não pode ser adquirido como conseqüência de aptidões naturais e algum treinamento. O mesmo vale para engenheiros, enfermeiros, dentistas…

“Ah, mas o jornalismo lida, sim, com matéria delicada, que diz respeito à honra das pessoas…” Pois é. São valores éticos e morais que vigem na sociedade. E cada veículo acaba criando as suas próprias regras internas. As faculdades não têm a menor interferência nesse debate. E, meus caros, há uma coisa que nenhum curso consegue fazer: ensinar a escrever. Isso não acontece.

Vejam só: dei aula de redação durante muito tempo. E era bom isso. Sim, você consegue passar adiante algumas dicas para os estudantes: - numa dissertação, exponha com clareza seu ponto de vista logo no primeiro parágrafo; - nos parágrafos seguintes, argumente em favor da sua tese e aproveite para se referir a teses contrárias, demonstrando por que estão erradas ou apenas parcialmente certas; - cuidado para não dedicar espaço excessivo à contestação do que você rejeita em vez de defender seu ponto de vista; - cuidado com a argumentação em camadas, com parágrafos justapostos, sem que um se conecte com o outro; - No parágrafo final, o da conclusão, retome a tese inicial de modo a evidenciar para o leitor que você demonstrou o que queria e não se perdeu na trajetória.

Tudo isso a gente ensina. Os bons alunos aprendem e apreendem as regas e conseguem ter um bom desempenho em vestibulares e provas de seleção. Mas o sujeito talentoso, o que vai viver da escrita, bem, queridos, este domina as regras e consegue o seu diferencial estourando com elas, entenderam? O nome disso é talento. Como dizia Picasso, para pintar como Picasso, é preciso saber pintar como Rafael. E atenção! Não existe “professor de transgressão”. Isso é coisa da moderna educação, quase sempre beirando a delinqüência. Um bom mestre é o que ensina regras — como um bom pai é que tenta conservar a ordem. Cabe ao estudante — e, no meu paralelo, aos filhos — testar os limites do que se aprende, fazendo uso criativo da norma.

Ensinei muito aluno a escrever e a passar em provas. Mas não consegui ensinar talento para ninguém. Porque não se ensina. Quando muito, ele pode ser disciplinado. Também as regras para uma boa narrativa podem ser expostas na sala de aula: - se você pretende que, ao fim de sua história, A personagem “X” seja caracterizada como psicopata, por exemplo, sugira isso com sutileza ao longo da história; - tente estabelecer uma relação transitiva entre personagem e ambiente: poder ser tanto por similaridade como por contraste. Vale dizer: ou ela vive em harmonia com seu meio ou é outsider; - tendo imaginado um desfecho para sua história, vá lançando indícios ao longo do texto. E faça uma escolha: ou eles concorrem para o fim que você imaginou, ou eles o contrariam, surpreendendo o leitor; - ao construir uma personagem, deixe claro para você mesmo se a quer como um caso típico de um grupo social ou como uma exceção…

E vai por aí. Essas dicas, no entanto, não tornam ninguém um escritor. Há técnicas para se fazer uma dissertação correta. Há técnicas para uma narração correta. Há técnicas para uma reportagem regulamentar. Mas dominar o bê-á-bá da dissertação não faz de ninguém um articulista. Dominar o bê-á-bá da narração não faz de ninguém um romancista ou contista. Dominar o bê-á-bá do texto jornalístico não faz de ninguém um jornalista. Porque nada disso faz com que se cruze a linha da distinção se não houver TALENTO. Sim, esta profissão também requer talento. E acreditem: hoje mais do que antes, com a proliferação de sites e blogs. Sim, existem aos milhares. Mas quantos são legíveis?. Melhor ainda: quantos realmente têm leitores?

Um diplomado de talento deixou de tê-lo porque caiu a exigência? Ora… A demanda pelo curso vai cair? É evidente que sim. E pode crescer, com o tempo, se os cursos de jornalismo conseguirem se reinventar. Faz sentido haver, como há hoje, “professores” de jornalismo que ocupam o lugar privilegiado de que dispõem para fazer, por exemplo, proselitismo em favor do MST? Está ensinando jornalismo ou procurando fazer cabeças para “infiltrá-las” na imprensa burguesa? Ou ainda: faz sentido desprezar um especialista em economia que consiga se fazer entender com clareza? O jornalismo tem muito a ganhar quando for ocupado, também, por gente que sabe a diferença entre percentagem e ponto percentual…

Vamos parar com essa bobagem corporativista. Não é por acaso que os grandes defensores do diploma estejam concentrados hoje da Fenaj e na ABI. Há, nas duas entidades, uma gigantesca inflação de “jornalistas de carteirinha” que nunca pisaram numa redação. O que isso significa? Pertencem ao cartório do jornalismo, mas jornalistas, de fato, não são. Embora digam defender a “catchiguria”.

E outras profissões que também não põem em risco a segurança etc? Ora, a exigência do diploma, é questão só de cobrar esclarecimento do tribunal, caiu junto. Qual é o sentido da relatoria de Gilmar Mendes, endossada por outros sete ministros? As qualificações profissionais de que trata o artigo 5º, inciso 13 da Constituição, só podem ser exigidas das profissões que podem trazer dano ou perigo à coletividade ou prejuízo a terceiros.

Fez-se uma escolha que privilegia a liberdade e o talento. Entendo que as guildas chiem um pouco, que as corporações de ofício reajam. Afinal, esse cartorialismo estúpido, inconstitucional e em desacordo com tratados internacionais — como a Convenção Americana de Direitos Humanos (1969), conhecida como Pacto de San Jose da Costa Rica, ao qual o Brasil aderiu em 1992 — é que lhes assegura um pouco de poder e influência. O artigo 13º da tal convenção “garante a liberdade de pensamento e de expressão como direito fundamental do homem.” Falei em guildas? É, a metáfora nem chega a ser perfeita. Elas realmente reuniam os profissionais de uma determinada área. As nossas, além de tudo, são guildas-fantasmas.

À luta, talentosos!

Agora é uma entrevista de Lula da Silva
Trata-se apenas de áudio, mas o descaramento do presidente fica mais uma vez evidente. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Aqui, quinhentas e poucas palavras valem por um bilhão de imagens...
Ouça, é realmente desconcertante ouvir Lula da Silva dizer que antes de fazer a transposição seria necessário, imagine só, salvar o São Francisco.

Vídeo Comprova Desrespeito do Presidente Lula com Nordestinos e Especialmente com o Rio São Francisco Parcela considerável dos nordestinos “ama” o presidente Lula da Silva. Pesquisa publicada em 09.06.2009 por O Estado de São Paulo diz: “A avaliação do governo Lula, segundo a Pesquisa CNI/Ibope de junho, continua sendo a mais positiva entre os entrevistados de menor escolaridade e na região Nordeste. Considerando a avaliação da maneira como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva administra o País, a aprovação chega a 92% no Nordeste, acima da média nacional, que é de 80%... No Nordeste, 78% consideram o governo Lula "ótimo" ou "bom", contra 70% no Norte, 63% no Sudeste e 60% no Sul.” Cientistas e analistas políticos (de vários matizes) concordam quanto aos fatores de maior monta para nutrir uma avaliação tamanhamente positiva: o presidente fala a “língua” do povo; e mais preponderante ainda, realiza a maior distribuição oficial de dinheiro público através do Bolsa Família. Caberia supor que o presidente, diante da extraordinária aclamação pública, pudesse ter um mínimo de respeito com os nordestinos e sobretudo com os interesses maiores da região. Mas não é isso que Lula pratica –-aliás, há tempos o presidente não dá a mínima para o Nordeste. O maior exemplo estaria nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a grande aposta do presidente para fortalecer a candidatura à Presidência da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. A maioria está parada ou nem mesmo saiu do papel. Até a malfada transposição do São Francisco, apesar de todo o barulho, recebe menos dinheiro do que deveria –-segundo a revista Veja (10.06.2009), “...apenas 12% dos recursos chegaram ao canteiro... A permanecer o ritmo atual, serão necessários quinze anos para finalizar o trabalho.” Exemplos do descaso de Lula com os nordestinos há aos montes. Contudo, o que interessa no exato instante é a manipulação urdida em torno da transposição ainda no momento da reeleição --e no substrato, os desdobramentos políticos para tentar validar a obra. Ou dito noutras palavras: as ações do presidente Lula para tentar convencer a opinião pública brasileira e especialmente os nordestinos quanto a viabilidade do projeto, enquanto estudos realizados por reconhecidos pesquisadores dos recursos hídricos nacionais o apontam como o tiro de misericórdia para esvaziar de vez o Velho Chico. Aos fatos. Nos palanques em 2006 Lula dispensou a mínima réstia de compromisso com a verdade que lhe restava –-se ainda lhe restava! Em Natal criticou quem supostamente o impedia de fazer a transposição e prometeu que a faria caso fosse reeleito. Usando a mesma jaqueta, algumas horas depois diz em Aracaju o diametralmente oposto: “Como fazer transposição de água que não existe?” O vídeo publicado no YouTube com os discursos de Natal e de Aracaju choca por demontrar mais uma vez e com extrema clareza do que Lula é capaz quando eleição e poder político estão em jogo. Que o diga o inesquecível mensalão. No caso em questão a transposição serviu apenas de biombo. O tema pode parecer extemporâneo. Ledo engano! A prescrição para atos amorais inexiste porquanto ferem os mais básicos preceitos éticos. O que importa é como a maior autoridade política do país se comporta diante da mais perigosa intervenção ambiental da história do Nordeste. O que importa é como um presidente mente descadamente apenas para reeleger-se e para ajudar a eleger uma aliada e um correligionário –-o atual governador sergipano Marcelo Déda (PT), cuja campanha desandava pela dubiedade do próprio em garantir se era a favor ou contra a obra e pelo fato de o presidente ainda não haver se comprometido no estado em não realizá-la. Confrontar a verdade pode ser muito duro...

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Veja vídeo original no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=SQ2QCLAus1M