OS IDOS DE
MARÇO
(Por Martim Vasques da Cunha*)
Algumas
observações sobre as manifestações que ocuparam o país e, ao que
parece, vão ocupar ainda mais:
1. Há dois anos,
no auge dos protestos de junho de 2013, estava prestes a dar uma
palestra para um grupo de amigos e disse a um dos convidados, um
desses janotas que vivem em função do mercado financeiro, que o
Brasil estava passando por um processo revolucionário. Ele apenas
fez um muxoxo e um esgar de desprezo;
2. Estamos na fase
em que a “crise de hierarquia” (crisis of Degree, na terminologia
de René Girard), na qual a sociedade não consegue mais se espelhar
na elite que deveria liderá-la, já mostrou a que veio. O Estado
falido que não admite isso para si mesmo e, por meio de seus
funcionários e acólitos, começa a achacar a população com
impostos, taxas e outros tarifaços; a economia que se desagrega a
olhos vistos no bolso de qualquer trabalhador, independente de classe
social; um governo perdido que não sabe o que deve ser feito para
manter o mínimo de ordem institucional; e um clima crescente de
insatisfação que, se não for devidamente canalizada, pode
descambar em violência, uma vez que anda sempre em busca de
experiências catárticas, como as passeatas ou manifestações de
massa;
3. Em outras
palavras, citando Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, estamos
em pleno “o diabo na rua, no meio do redemoinho”;
4. Dito tudo isso,
o que mais surpreendeu na manifestação do dia 15 de março de 2015
foi o fato de que, pela primeira vez em minha porca vida, não era um
movimento comandado pela retórica de esquerda e sim uma reunião
daquilo que os americanos chamam de “a maioria silenciosa” - ou
seja, a maioria de todos nós, que trabalha e paga impostos e que,
sobretudo, aguenta até um certo limite para a interferência do
Estado em sua vida privada. Contudo, quando este limite estoura –
como é precisamente o caso deste momento em que estamos vivendo –
a reação é a da justa indignação;
5. Em geral, os
espectadores engajados sempre ficam céticos em relação às
manifestações que envolvam mais de três pessoas. A princípio, foi
o meu caso. Mas, ontem, ao ir ao protesto na Paulista para observar,
a primeira coisa que me sensibilizou foi, digamos assim, “o
mimetismo do bem”. As pessoas que estavam lá podem até não ser
honestas ou boas todos os dias e todas as horas da sua vida; mas,
naquele momento, todos queriam ser bons, todos queriam ser honestos –
e isto é o que conta. Minha esposa foi comprar duas Cocas em uma
banca que estava aberta e achou que o vendedor havia errado no troco.
Informei que ele estava certo – e o sujeito respondeu a ela: “Aqui
ninguém quer roubar não, aqui ninguém é PT”;
6. A outra coisa
que impressionou foi a ausência de um clima de violência e de
ressentimento. Havia famílias e gerações inteiras ali: desde do
avô até o neto pequeno, passando pela mulher, pelo filho, pelo
sobrinho. Outro detalhe: muitos negros, vários homossexuais, vários
travestis. O que isso significa? Que decência não tem gênero, raça
ou escolha sexual e que esse pessoal também está cansado de ter as
suas reivindicações sequestradas por um grupo de oportunistas;
7. Assim, fica
nítido que o PT não engana mais ninguém. Aliás, é o que todos
queriam ali, sem exceção: que Dilma e o PT fossem embora da vida
pública. O que seria excelente, porém não é o que vai acontecer:
Dilma será rifada pelo PT para este permanecer no poder e o Partido
dos Trabalhadores vai se desintegrar em outros pequenos partidos para
continuar com seu trabalho hegemônico de aviltamento das
consciências. O PMDB será o fiel da balança e terá de se unir com
o PSDB para governar minimamente o país;
8. A única coisa
que pode mudar essa situação é se Sergio Moro (gostaria de saber
se o juiz federal tem consciência de que o seu Moro pode ser tanto
do juiz italiano Aldo ou do mártir inglês Tomás), com a Operação
Lava Jato, limpar a estrutura política do país, colocando a cúpula
do PT (especialmente Lula e José Dirceu) em maus lençóis –
leia-se: em cana. Por mais que Moro & Cia sejam extremamente
competentes, temos que saber até que ponto o patrimonialismo
jurídico deixará Dias Toffoli em seu devido lugar, já que o PT
deseja que ele cumpra o seu papel de militante do patrimonialismo
revolucionário;
10. E, por falar
em Olavo de Carvalho, lembro-me que há dois meses tive uma conversa
com Joel Pinheiro da Fonseca** e ele afirmou que “o olavismo estava
morrendo”. Bem, ontem, na Paulista, eu não vi nenhuma placa
escrita “Joel Pinheiro tem razão”;
11. Voltando aos
três tipos de patrimonialismo, fenômeno descrito com perspicácia
por Raymundo Faoro, mas desenvolvido de forma brilhante por Antonio
Paim em A querela do estatismo e depois levado ao extremo da
genialidade por Paulo Mercadante em seu A coerência das incertezas.
A luta pelo butim do Estado se dá entre o PT, PSDB e PMDB – mas,
ontem, na manifestação da Paulista e em outros lugares do Brasil,
as pessoas não queriam saber nada disso. Ao contrário dos protestos
de 2013, em que desejavam mais Estado para resolver problemas do
próprio Estado, tudo o que queriam ali era que o governo parasse de
interferir na vida de cada um;
12. Assim, o que
pode acontecer daqui em diante? Dilma e o PT caem? É provável que o
Partido dos Trabalhadores rife Dilma Roussef para não perder o
reino. Tudo isso depende de como o PMDB (leia-se Eduardo Cunha,
presidente da Câmara dos Deputados) se comportará. Mas o PT
demorará para ir embora da vida pública. Afinal, não se trata de
um mero partido – e sim de uma forma de pensamento. Este pessoal
não vai embora tão cedo;
13. A prova disso
é a própria reação da mídia que, desesperada porque está vendo
o seu mundo ruir, parte para a desinformação pura e simples, como
fez a Globo News com os comentários patéticos de Cristiana Lobo, a
Folha de São Paulo com sua opção “a solução é à esquerda”
e os demais veículos;
14. Enfim, há
muita coisa a ser feita. Mas o que tem de ser comemorado é que, pela
primeira vez na minha curta vida que espero ser longa, eu testemunhei
o fato de que o feitiço virou contra o feiticeiro.
– – – – –
– – – – – – –
(*) Martim Vasques da Cunha é escritor, jornalista, doutorando em Ética e Filosofia Política pela USP, autor de "Crise e Utopia: O Dilema de Thomas More" (Vide Editorial, 2012) e colaborador do jornal literário Rascunho. http://martimvasques.blogspot.com.br/
(*) Martim Vasques da Cunha é escritor, jornalista, doutorando em Ética e Filosofia Política pela USP, autor de "Crise e Utopia: O Dilema de Thomas More" (Vide Editorial, 2012) e colaborador do jornal literário Rascunho. http://martimvasques.blogspot.com.br/
(**) Joel Pinheiro
da Fonseca é mestre em Filosofia pela USP, mestre em Filosofia pela
USP e editor da revista cultural
Dicta&Contradicta. http://www.dicta.com.br/
– – – – – – – – – – – –
Por David Leite ©2015 | 17/03 às 14h55 | Reprodução permitida, se citada a fonte | Com informações da imprensa e fontes de pesquisa. #Curta #Comente #Compartilhe
– – – – – – – – – – – –
Por David Leite ©2015 | 17/03 às 14h55 | Reprodução permitida, se citada a fonte | Com informações da imprensa e fontes de pesquisa. #Curta #Comente #Compartilhe